Conto: Os tapetes dela

Publicado na revisa Mafuá da Universidade Federal de Santa Catarina - Clique Aqui.



Os Tapetes Dela

Sento-me à janela, sentindo a brisa bater em meu rosto. É morna, suave e aquece. Ainda assim continuo sombrio, divagando impropérios, perambulando o olhar pelas ruas apinhadas do lado de lá do vidro. Há um quê de dor em meus pensamentos, ao mesmo passo em que há uma vaga lembrança do que me arrasta para esse abismo. Uma fisgada profunda no coração. SAUDADE. Ora. Que outra desgraça mais profunda poderia causar tamanha calamidade no peito de um bom sujeito como eu? Talvez infarto. É bem possível. Mas por enquanto nos contentemos com a tal da Saudade.  Sempre a maldosa saudade, pura e simples, amarga e dolorosa. Cruel, sórdida, ordinária e também doce, amena, envolvente, que chega de mansinho e se apropria de seu corpo por completo, levando-o aonde bem quiser. E lá me vou com os impropérios mundo afora, sem nem mesmo sair dessa cadeira que range sempre que movo de leve o corpo. Mas não se engane pensando que me aflige uma tristeza excruciante. Não é isso, ou melhor, não é bem isso. Me perturba o afanar da memória que me rouba o melhor do passado. Tempo. Esse ladrão sem-vergonha é bem capaz de me pôr em suspenso no ar, num estado de depressão ardente e fervorosa, perdido num passado quente e muito adocicado, e vago pela falta da memória afanada pelo maldito. Consegue acompanhar, caro amigo? Se consegue, faça o favor de me explicar, pois eu há muito que me perdi nessa conversa desmiolada de um velho desocupado que fica tentando relembrar o passado sem derramar as inevitáveis lágrimas. E é aí que entra meu calamitoso e sombrio estado de espírito... Tudo bem, eu paro de divagar loucuras sem sentido, mas você me promete não me abandonar nessa trajetória em que hei de mergulhar pelas próximas horas?  Está certo, vamos começar nossa caminhada e remontar tempos em que você provavelmente nem era nascido, e talvez nem sua mãe e seu pai também o fossem. E se em algum momento o tédio bater, por favor, me avise. Trato de apimentar a história, ainda que para isso seja necessário desvirtuar algumas das estradas percorridas. É também preciso encher os buracos que se formam na mente de um velho quase acabado, beirando a partida para o descanso eterno, e é provável que a história varie entre fatos e loucuras, por isso peço que releve os defeitos desta velha carcaça. Bom, vamos começar. Mas antes me prometa mais uma coisa, meu jovem. Prometa que não vai me deixar pegar no sono no meio dessa história. Seria um desperdício ter de voltar ao início mais tarde, e também não posso perder o horário dos remédios, malditos, que me deixam ainda mais zonzo do que a idade já o trata de fazer. Então lá me vou pelo túnel do tempo, e volto ao que um dia fora meu reflexo no grande espelho da sala da fazenda em que fui criado. Uma sala refinada e sem o menor aconchego. Um ambiente grande, com tábuas lustrosas como piso e peças de porcelana delicadamente alocadas no arredor, como acabamento. Enquanto tenho apenas sete ou oito anos, me parece um verdadeiro salão de baile, com jarros imensos cheios de flores que me fazem constantemente espirrar e me inflam o nariz. Um nariz que já é de formato engraçado. Corro os olhos pelos arredores, apreciando a pouca luz e o silêncio da noite. Eis que lá está ela, na outra ponta do cômodo, muito além da mesa de madeira pesada, bem ao lado da estante horrorosa que ostenta os cristais da família, passados de geração a geração. E seu olhar é desafiador. Ela é a menina mais feia que conheço, seus cabelos estão sempre emaranhados, amarrados e, ao mesmo tempo, rebelados. Seu corpo é magricelo, não há absolutamente nada de delicado em sua silhueta ossuda de jovenzinha. E é ela minha única e verdadeira amiga, aquela que me vence nas corridas até o lago e me acerta com maçãs quando disputamos uma subida na macieira. É a menina mais atrevida, arrogante e divertida que conheço. Que não pensa duas vezes em contar uma mentira para nos assegurar alguns biscoitos de tia Zuleica ou uma fatia de torta. E esses são os melhores momentos do nosso dia, quando enfiamos biscoitos dentro das mangas das blusas já sujas de alguma das aventuras vividas, ou quando confundimos a tia o suficiente para roubar a torta e nos empanturrarmos dela no curral, dividindo com as galinhas, que também se refestelam sem nunca nos entregar. E à noite, quando finalmente o murmúrio agitado da casa vai silenciando gradativamente, quando meus pais repousam cansados das tarefas que a eles cabem durante o dia, quando tia Zuleica ronca pesado no seu casebre que fica quase colado ao nosso e minha avó resmunga em sonho com os netos, vou sorrateiramente deslizando da cama macia que tanto me convida para um sono profundo e mergulho no corredor escuro, passo por passo, tentando minimizar o ranger das tábuas velhas, que devem ter a idade da minha avó, ou ainda mais, e em todas essas noites ela está lá, do outro lado da sala, rindo baixinho e chacoalhando os cabelos. Olho mais uma vez para o meu reflexo no enorme espelho que minha mãe ganhara em seu casamento e logo ocupara a parede inteira ao lado da escada. Depois olho para ela novamente. E como sempre, vestida com seu pijama de flanela bege e suas meias de lã, ela está desafiando uma cadeira. Argumentando alguma coisa que para mim é totalmente inaudível. Será que ela não dorme nunca? Encolho-me sobre os degraus e me resigno a observar. Se ela dorme não sei, mas eu, enquanto não vejo seu espetáculo, noite após noite, não consigo pregar os olhos. E o show começa. Empunhando um cabo de vassoura que ela premeditadamente surrupiara, se posta sobre um tapete felpudo que, se não me falha a memória, foi outro presente de casamento da minha mãe. E lá se vai Margarida, deslizando pelas tábuas da sala, em cima do tapete velho e empunhando o tal cabo da vassoura. E Margarida sorri, ainda que lhe faltem alguns dentes que logo deverão chegar. E esse nome? Um nome tão gracioso para alguém tão ‘desgraciosa’. Se bem que seu sorriso pode ser acolhedor. E ela fica ali, deslizando por um tempo que me parece eterno. É um pirata, uma barqueira, uma viajante solitária. E eu apenas observando. Uma pausa para um copo de água. Ei meu jovem, você mesmo, será que não traria um copo de água para este velho sonhador? Ah! Obrigado. Um copo de água e podemos retomar nossa viagem no tempo. Pois bem. Margarida, a sobrinha de tia Zuleica, que também não é minha tia, mas uma governanta da fazenda da minha família, está com quase quinze anos. E a maldita agora faz jus ao bendito nome, parece uma flor de tão bonita, com feições delicadas e perfeitas, mas tão arrogante e aventureira quanto antes. E tão apaixonada pelos tapetes quanto sempre. E eu, moço (não tão bonito) que agora frequenta a cidade, ouço os rumores dos rapazes que pretendem cortejá-la e me envolvo aqui e ali com uns socos e chutes em nome de sua imaculada honra. Não que Margarida me interesse de um jeito que não seja o habitual, apenas não posso, de jeito nenhum, perder seu show com os tapetes velhos da minha sala, que já não é tão grande como antes. E agora um enorme branco na cabeça deste velho azucrinado. Um vestido branco, somente essa imagem me vem à cabeça, e depois vejo novamente Margarida, ainda mais linda, beirando os vinte e cinco anos, segurando um bebê miúdo, envolto em mantos bordados por ela mesma com flores rosas. Ah! Sim, Margarida embalando a pequena Rosa, filha que ela carregara em seu ventre como se fosse o maior de todos os tesouros. E agora as duas deslizam pela sala. Mas não a sala de minha mãe. Não pode ser, não vejo os jarros feios que antes eram sempre entulhados de flores que me causavam acesso de asma na adolescência. Que sala é essa? Ser velho é uma coisa dolorosa, como é possível eu ver tão nitidamente o corpo esguio e sedutor da mulher que conheci quando menino, segurando seu bebê nos braços, deslizando no meio da noite sobre um tapete felpudo em uma sala, e não conseguir me lembrar de quem é a maldita sala? Mas me lembro de estar lá, sentado sobre os degraus, sentindo o fogo queimar no peito e saboreando o ninar do bebê com a graça dos movimentos da menina que agora é mãe.
Minha sala. Minha bendita sala. Nossa sala. Minha esposa. Meu bebê. Minha Margarida e minha Rosa.
Mas os tapetes são dela. Definitivamente.





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Graci Rocha