Conto lágrimas de um louco

*Conto Premiado e selecionado para a Antologia Amores Impossíveis.
Lágrimas de Um louco

Um feixe de luz invade a cela fria e úmida em que aguardo pelo final. Um final triste e solitário, tão digno do meu merecimento. As paredes revestidas por flores desbotadas e a solidão do branco deste quarto me envolvem e aconchegam numa penumbra quase sóbria, não fosse o turbilhão atordoado que fica remoendo o pouco que ainda me resta do passado. Pensamentos vêm e vão num lampejo frenético que aos poucos devolvem algum pingo de sanidade e memória a esta carcaça inútil que jaz a espera da morte. Uma morte lenta e dolorida, assim espero. E espero porque a desejo. E a desejo com a mesma intensidade que um dia clamei pelo sentimento maior e mais amplo que pode ser conhecido por um simples mortal, o amor. E eis o culpado de todo o tormento do mundo, de todas as guerras e de todo ódio.


Em tempos tão científicos e tão dotados de saberes me atormenta não ter podido compreender antes o que me ocorria nas entranhas da mente e no entorno de um mundo cínico, evitando o que hoje me consome, da mesma forma que um verme corrói a carne fétida de um moribundo no túmulo.
E cá estou divagando obscuridades e cuspindo impropérios sem ao menos recordar-me com exatidão do que me aflige o âmago e tanto atordoa os sentidos. Não. Eu não sou um velho que, dominado pela caduquice da idade avançada, esquece-se daquilo que lhe marcou a pele, durante os anos de vida. Longe disso, me sobram os anos e me falta a vontade de viver.
Até que vivi por um tempo, e numa intensidade que se poderia apreciar, ou talvez não. Desde que contada da maneira correta daria uma história interessante, ou talvez não. Vejamos se ainda é possível juntar alguns respingos do trajeto de vida e misturar com o que me pôs aqui nesse lugar inóspito, que em nada melhora minha latente vontade de entregar-me ao miraculoso Hades, e quem sabe consiga narrar algo um pouco compreensível.
Augusto Luiz de Almeida e Campos, um nome tipicamente conjugado e digno de uma classe um pouco mais abastada, ou talvez até mais‘abestada’, regalo de meus amados progenitores, quando, neste mundo, fui jogado aos cuidados de uma boa babá. Mas enfim, abrandando o sarcasmo que vez ou outra me parece dominar, voltemos à questão que me põe nessa conversa desordenada, se é que ainda está ai ouvindo meus devaneios de louco.
Ah! Esqueço que estou só neste quarto, torturando-me enquanto aguardo que alguma enfermidade trate de me levar para outro mundo. E que ela surja de uma vez, pois esta ansiedade me atormenta ainda mais que qualquer outra melancolia deste lugar. Mas, afinal do que estou mesmo falando? Por que anseio por dor, quando deveria estar vivendo o que os vinte e poucos anos de vida podem oferecer?
Ah! Sim, por causa daquele dia e por causa de todo aquele sentimento.
Caminhei pela sala sentindo o aroma adocicado de seu perfume, era inebriante e assombrosa a sensação que me causava aquele cheiro, um misto entre desejo, medo e paixão. Subi as escadas com a calma habitual cogitando se a encontraria, nua, sobre os lençóis alvos, ou em seu famoso banho restaurador, repleto de ervas excêntricas que poderiam talvez, matar alguém. Ou, quem sabe ainda, em alguma de suas artimanhas conquistadoras que me seduziam pura e simplesmente.
Em sua sutil e dissimulada e, também, displicente maneira de ver o mundo havia feito a maior proeza de todas, me tornando seu de uma forma a não ter, jamais, volta. E eu era seu, completa e intensamente. E não tinha pretensão de retornar, fosse o que fosse, houvesse o que houvesse.
As brigas por causa das milhares de toalhas molhadas sobre a cama, das inúmeras pastas dentais apertadas no meio, dos incontáveis sapatos jogados pela salinha que chamávamos de nossa, me causavam um prazer quase orgástico. E havia naquela comum vida de dois, o que se chama de amor.
Já disse que o amor é o causador de todos os males do mundo?
Ah! Sim, é sempre culpa do amor. Eu aqui, nesse sofrido esperar pela passagem que me há de guiar para o mundo dos ‘não vivos’ tão dolorosamente, para que eu pague pelos pecados que um dia devo ter cometido, é, portanto, culpa do amor.
Mas até àquele dia não fazia ideia do quanto aquele doce sentimento me podia matar por dentro, me levar a loucura e ao mesmo tempo trazer de volta. E agora, refletindo sobre isso, percebo que o mais real desse obtuso e descarado tal de amor é ele ser assim, doloroso, sofrível de um jeito quase inacreditável. E cá começo eu com os impropérios novamente. Voltemos aos fatos.
A conheci por acaso. Simples assim. Apaixonei-me tão prontamente quanto poderia ser possível, mandei flores, tentei parecer digno, romântico, intelectual e bastante merecedor de seus mais puros sentimentos. A conquistei de fato, não com a imagem de bobo que tentei fazer, mas com o mais comum de mim que se expressava ao vê-la. Um verdadeiro eu que só emanava quando ela sorria das piadas abobalhadas, ou quando brigava por algum direito, ou ainda quando cantarolava desafinada, tentando minimizar o nervosismo.
Fui amado, pude sentir a cada dia em que vivemos a intensidade um do outro, a cada toque em sua pele, a cada suspiro seu depois de amá-la.
Eis que as lágrimas me afloram de um jeito que só a morte pode sanar.  
Agora, olhando o entorno, vendo as paredes, a porta trancada, a vida insossa pela qual rastejo até o momento que tanto espero, percebo, e mesmo que pareça um clichê, ainda mais vindo de um desvairado como eu, que fui feliz. E se pudesse sentir só mais uma vez, um pouquinho que fosse, só um instante daqueles momentos...
Porque não tiro, eu mesmo, a vida deste corpo indigno e desgraçado, de uma vez por todas? Pelo único e simples motivo de que me faltam apetrechos necessários para tanto ou talvez seja a fraqueza do âmago a verdadeira culpada. Aproposito, você ainda está ai, do outro lado dessa maldita porta que me impede de ver o mundo novamente? Do que estávamos falando mesmo?
Ah! Estou só não é mesmo? E a porta nem está trancada.
     E volto a sentir-me tal como um velho zonzo, falando com as paredes, murmurando bobagens, mas a bem da verdade é que atordoado sim, velho ainda não, para minha infelicidade, pois se já estivesse em idade avançada, mais perto da morte estaria.
E começo novamente com as súplicas. Que papel desprezível, que falta de hombridade. E mais uma vez me perco dos fatos, transitando nessa linha tênue em que se instalara minha sanidade e meu tormento.
Subi as escadas com a imaginação inflamada de um amante, vendo-a de todas as maneiras possíveis, a silhueta deslizando suave, como um balé, como um ritual de conquista, como haviam sido todos os encontros de uma rotina ardente.
Cautelosamente fui em direção à porta do quarto, nosso pequeno recanto de apaixonados, abri com a suavidade merecida pela ocasião e contemplei a finura quase inexistente daquele lugar. Era tão mágico quanto uma pedra qualquer.
A magia toda estava naquele par de olhos que cintilavam ao encontro dos meus. Olhos que não me esperavam sobre a cama, nem em nenhum canto do cubículo.
Em busca de seu corpo, fitei ao redor, mas ela não estava lá, não estava mesmo. Sentei-me sobre os lençóis macios e compreendi, havíamos finalmente perdido a batalha.
Batalha que travávamos há um bom tempo e com todas as forças e armas possíveis que um guerreiro pode apoderar-se para os fins de vitória. Sabia, sentia lá no fundo do âmago que ela, desistindo de tudo, se havia partido para o aconchego de seu antigo lar, entregando-se a morte da alma.
Não abri as portas do guarda-roupa minúsculo que permanecia com traços apodrecidos, num ponto do quarto. A coragem do valente me deixava a mercê do medo e da dor da perda. Pensei instantaneamente na morte. Na morte que aquela separação me causava e rezei que ela se concretizasse por fim. Tudo se havia acabado.
Fomos felizes, ainda que nossa felicidade tenha custado quase que a vida de alguns, levando-se em conta nossas origens de rivais praticamente ancestrais.
Mas como seria mesmo possível, tendo linhagens tão oportunistamente diferentes, que conquistássemos um “felizes para sempre”? Não havia a menor pretensão à tão grandiosa façanha, só uma luta desmedida por um sentimento tão vasto que talvez, em nossa infante maturidade nem soubéssemos o que era.
E voltam as lagrimas a jorrar de forma que me torno um tolo abraçado a uma caixa de lenços, com nariz e olhos avermelhados e uma dor tão aterradora quanto inútil. Ela não vai voltar, nunca, é provável. Mas não se engane com meus impropérios, ela não está morta. Bom, acredite nisso se achar um pouco menos grotesco, acredite que sofro por um amor que me foi arrancado pelas mãos de alguma fatalidade. Saiba que longe disso passa essa nossa história.
O choro descontrolado que me leva a jovens fios de cabelos brancos é compatível de quem vê seu amor partir e que agora espera por um ponto final.
Maldito amor! Maldito sentimento que me destrambelha as ideias e devora o fiozinho imperceptível em que se mantivera, por tanto tempo, a dignidade. Que por sinal foi-se também depois de tamanha e desvairada desgraça.
Levava uma vida como outra qualquer, jovem de classe média, estudante, bom carro, bom inglês e pais peculiares de seu status social, diga-se de passagem. Mas então ela surgiu suave, destemida e disposta a deturpar minha vidinha sem graça.
Vinda de uma classe não menos importante nos dias de eleições, mas com residências muito menos glamorosas, simplesmente assolou as estruturas dos pilares centenários de prédios, aos quais me diziam de nosso grande poder aquisitivo.
 Nativa de um lugar tão popular, e dona de si de um jeito único, logo se tornara o foco das minhas emoções, enquanto que nossos genitores, em uma luta inacreditavelmente mesquinha uniram-se para afastar os sentimentos mais nobres que cresciam entre dois apaixonados.
E lutamos, brigamos aos berros por tamanho desespero de amor, rivalizamos com pais desalmados e nos entregamos à paixão mais ardente.
 Olho as paredes medíocres, daquele que por vezes foi um esconderijo acalorado e suspiro. Vejo as garrafas vazias, perdidas pelo chão, recordo o desencontro cruel que me afundara nesse abismo sem fim. E choro como um abobalhado de novo. Maldito!
Clamo pelo que, ao menos, me é de direito. Uma passagem, sem volta, para um lugar aonde não veja nem no mais vil dos sonhos, seus olhos clamando por beijos, nem a pele e nem o perfume de donzela.
E aguardo.




   



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Graci Rocha