Fada do Dente

Oiieee

Hoje vamos de continho, pequeno e bonitinho...


Fada do Dente


Queridinho era um menino típico de seis anos, cabelos espetados, nariz meio sujo e olhos sempre a procura de uma grande aventura. Vez ou outra metia algo na boca, para loucura da pobre mãe, que já via os fios brancos brotando no auge dos trinta e dois anos. Mas toda mãe que se preze conhece o ponto fraco do filho e sabe usar sempre que o desespero bate à porta. E assim, toda vez que Queridinho aprontava uma travessura daquelas, dizia sem pestanejar: “Jesus não mata, mas castiga, um dia você vai ver” e o menino aventureiro pensava a respeito, endireito-se no mesmo instante.

Como todo jovenzinho cheio de energia para gastar, a memória pouco guardava a respeito do que a mãe previa e novamente voltava às investidas contra os cãezinhos indefesos da rua, contra as janelas dos vizinhos e principalmente contra as bonecas e os cachinhos louros da irmã mais nova.  E a história sempre se repetia: “Jesus não mata, mas castiga, um dia você vai ver”.
Numa manhã de sexta feira, pouco mais de um mês antes de Queridinho completar seus tão esperados sete anos, o menino acordou sentindo uma leve dor de cabeça. A mãe, conhecendo a disposição do filho foi logo buscar a caixa de medicamentos, pegou o termômetro e lhe enfiou debaixo do braço, marcando os minutos exatos em seu reloginho de mãe, daqueles pequenininhos que ficam muito bem arrumadinhos no pulso fino, batendo o pé ela esperou para ver a temperatura no visor do termômetro. 38.5, alarmou-se, mandando o menino direto para o chuveiro e cavando dentro da caixinha apinhada, um remédio para lhe enfiar goela abaixo.
Algumas horas depois, Queridinho já tomado pelo tédio do repouso, se pôs a refletir sobre o que lhe estava afligindo. Imediatamente arrependeu-se da comidinha de barro que fizera a irmã comer, e do cuspe na janela limpa de dona Elza, a vizinha dos rolos nos cabelos e do gato gordo. Enfim havia chegado o dia que a mãe lhe tinha avisado e ele tentou se esconder debaixo do cobertor, mas o mal que ele havia infligido aos outros talvez estivesse retornando.
Depois de um sono curto e incomodo pela dor latente nas têmporas Queridinho descobriu um de seus dentes da frente bem molinho, a ponto de cair. Desesperado pediu desculpas a Jesus, por ter pintado de canetinha os dentinhos da boneca da irmã e por ter dado pimenta ao filhote do cachorro do vizinho novo.
Vendo que sua imagem devia estar bastante ruim perante seu castigador, tratou de pensar em uma alternativa, remediar o estrago. Talvez se ajudasse a mãe arrumando o quarto, ou com a louça da janta resolvesse o problema. Fazendo um tremendo esforço, se pôs de pé a limpar aqui e ali.
Para seu apavoro nada convencia o Poderoso de que ele se comportaria dali em diante e o dentinho, ainda que Queridinho o escovasse freneticamente para deixá-lo bem bonitinho, foi ficando cada vez mais molinho. Antes que a noite chegasse ele caiu.
Tomado pelo desespero Queridinho correu até a mesa de costura da mãe e pegou uma velha cola que estava na gaveta, enfiada lá para que a irmãzinha não a encontrasse. Empapou o dentinho ensangüentado com ela e enfiou de volta ao lugar em que pertencia. O gosto era terrível e ele sentiu vontade de vomitar. Só que Queridinho não podia se dar ao luxo de perder o dentinho e ficar banguela para todo o sempre, como prova de que havia sido tão malvado que Jesus o tivesse castigado. Amargou a tristeza e depois o medo da vara que a mãe vinha lhe prometendo há muito tempo. E seria bem merecido. As lagrimas corriam desenfreadas.
Cansado, guardou o dentinho debaixo do travesseiro, para que a mãe não percebesse o desastre em que se havia metido e dormiu.
  Na manhã seguinte Queridinho, recuperado da febre e do mal-estar passou a língua no buraquinho que deveria possuir o dente, rezando que tudo não tivesse passado de um sonho. Depois vendo que não pensou sobre a cola milagrosa que o pai usava em alguns consertos pela casa, correu a mão por debaixo do travesseiro, mas o dentinho havia desaparecido. Queridinho encontrara uma moeda no lugar e nem se lembrava de tê-la guardado ali. Revirou tudo e nada do dente. Desesperado entrou em pânico.

A mãe vendo o filho tomado pelas lágrimas aconchegou-o no colo, e ouviu a história toda, inclusive os pedidos de desculpas, por fim, contou-lhe a história da fada do dente. Aliviado ao saber que logo nasceria outro dente no lugar vago e contente pelo lucro que tivera no fim das contas, o menino resolveu brincar, limpou o rosto molhado e saiu.
Já tendo prometido a Jesus e não querendo correr o risco, deixou a irmã, as bonecas e as janelas de dona Elza em paz e também o pobre filhote do vizinho, pois pensando bem aquilo não era coisa de um menino descente.
Pensou por algum tempo e decidiu que talvez pudesse se tornar um menino de negócios, bastante rico e saiu em busca dos alicates do pai, algum deles haveria de caber em sua boca. 

**Para acessar a fonte da imagem, basta clicar nela.**

5 comentários:

  1. Oi, que conto mais legal. Gostei bastante dele. Bjus

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  2. Esse conto me lembrou bastante a minha infância, quando a minha mãe dizia que se colocasse o dente embaixo do travesseiro, no outro dia ele se transformaria em dinheiro. Espero o dinheiro até hoje HAHAHAH Adorei o conto. Chega bateu aquela nostalgia! <3

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  3. As crianças adoram e sempre esperam por ela rs...

    bjokas =)

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  4. Adorei seu conto, não sabia que vc escrevia tão bem.

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  5. Que conto bacana, acho legal como criança fica assustada e de repente tudo já está bem e já estão prontos para novas aventuras.

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Abraços!
Graci Rocha