Conto: Molho de tomates

*Este conto recebeu menção honrosa no Concurso Yoshio Takemoto e foi publicado na edição de número 43.

Molho de Tomate
Olhou no relógio e empertigou-se na cadeira. Como sempre ele estava atrasado e mais uma vez ela estava ali, com cara de “ridícula”, maquiada, bem vestida, perfumada e a espera do que ele tanto lhe havia prometido. Realmente estava cansada, aonde se havia ido parar sua dignidade de mulher?
Toda vez a mesma coisa, como se ter de marcar um encontro com seu próprio marido já não fosse degradante o bastante, tinha, ainda, que esperá-lo por boa parte da noite e por fim se dar conta de que ele não apareceria. O pior era que ele nem se recordaria no dia seguinte ou no mês seguinte ou quando quer que fosse que ela conseguiria colocar os olhos nele. Que situação absurda, casar-se com um homem atraente, rico, ser apaixonada por ele e nunca, nunca vê-lo. Isso precisava acabar de uma vez por todas e foi ai que ela decidira dar um basta ao seu frustrado casamento de conveniências. Ainda mais que a única conveniência que lhe convinha não acontecia há bastante tempo.
Revoltada ela levantou-se, pagou a conta e foi embora num taxi mal cheiroso que circulava os arredores, transportando passageiros das mais variadas estirpes.
Mais de uma semana se passou antes que tivesse noticia de seu marido e o mais interessante foi que a noticia não viera em forma de telefonema, e-mail ou ele mesmo, em carne e osso. Apenas uma foto em uma revista de fofocas, com uma notinha mínima dizendo: milionário aproveita jantar com a nova namorada.
Um suspiro e um olhar pesaroso lhe rendeu a imagem, mas não disse nada. Fechou a revista e a deixou no mesmo lugar de onde havia saído, de cima de uma mesinha na sala de espera do dermatologista. Foi a sua consulta onde foi sedutoramente bem atendida pelo médico, depois fez compras habituais em algumas boutiques, caminhou pela praia olhando o profundo do mar e naquela noite, como há muitos anos não o fazia, chorou. Chorou escondida, enquanto tomava um banho de espuma na luxuosa suíte de sua impetuosa propriedade. Mas tudo continuou como estava.
Ele apareceu exatamente 28 dias após ter-lhe dado, mais uma vez, um bolo ao suposto jantar romântico em que deveriam finalmente solucionar a questão das incontáveis viagens de negócios pelo mundo, a solidão da esposa, a falta de filhos, a necessidade de amor e por fim, após resolverem todas as suas demandas, ele teria lhe feito a promessa de uma grande mudança, beberiam vinho tinto, apreciariam uma bela refeição e passariam a noite inteira fazendo amor, em seu ninho construído especialmente para sua família.
Ele continuava um homem de aparência sóbria. Contando com 43 anos, poucos fios grisalhos, corpo bem delineado e uma elegância sutil, requintada e digna da sua postura social. Mas ela não perdia em absolutamente nada, parecia ainda mais jovem do que seus 42 anos, com o corpo firme possibilitado pelas muitas seções de ginástica, massagens, yôga e pilates. E Ainda podia orgulhar-se de não ter passado pelas mãos do cirurgião da família. Sua solidão, porém era mortificante, aterradora, sofrível em um ponto sem fim, mas ele não saberia. Não por ela, não por ninguém. Ele a veria como deveria ser, a bela esposa.
E ele chegou sorrindo.
Ela ofereceu-lhe um sorriso amável, abraçou-o aconchegando-o entre seus seios e sentiu seu ardor. Deixou que ele a tomasse nos braços, sedento por seu corpo, acariciando-a de forma que só ele pudera fazer. Fizeram amor enlouquecidamente. Ela o dominara, fora dominada, deixara-o a mercê de uma loucura sexual inebriante e o marido abismado se deleitava pela nova e maravilhosa mulher que encontrara ao chegar em seu lar. Passaram algumas horas ali, aconchegados em silêncio, um nos braços do outro, permitindo-se saborear o momento.
Ela postou-se de pé, envolveu-se em um chambre de seda preto e sorriu, saindo do quarto. Ele deitou a cabeça sobre o travesseiro e fechou os olhos, feliz.
Quando voltou, ainda enrolada em seu chambre sedutor, ela carregava uma badeja com uma bela macarronada ao molho vermelho, feita com tomates da horta que ela mesma mantinha. Carregava também um champanhe que pegara da prateleira especial da adega e duas taças.
Aproveitaram a deliciosa massa ao molho de tomates e sentiram o frescor das bolhas do champanhe correndo pela garganta. A noite não poderia estar melhor. Chegara exausto de uma temporada de enlouquecidas viagens e reuniões pela Europa. A esposa o esperava linda, ardente e ainda por cima havia preparado com suas delicadas mãos uma gostosa refeição para ambos apreciarem após o ato de amor. Tudo estava perfeito, só faltava lhe dar a grande noticia, aquela que ele lhe havia prometido há cerca de 5 anos e que se envergonhava tanto pela demora em concretizar. Agora poderiam finalmente desfrutar de sua riqueza e amor.
Ela beijou-o com suavidade e enquanto ele limpava os lábios sujos de vermelho, ela abriu a gaveta do criado mudo, ao lado da cama e pegou aquela que vingaria sua dor.
E ele sorriria para lhe dar a noticia não fosse pela arma que a esposa lhe apontava em direção ao rosto. Antes mesmo que pudesse compreender um som agudo irrompeu a paz harmoniosa e o clima amoroso, em seguida outro.
No dia seguinte uma nota na revista não chamou mais atenção do que o habitual: A revista se desculpa por referencia enganosa a romance de empresário.


Um comentário:

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    Desde já agradeço, desejo sucesso e um bom feriadão!

    Beijinhos Alados ♥

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Graci Rocha