Conto: Incidente no cemitério

Este conto foi premiado e selecionado para a coletânea Mistério das Sombras.

“Tudo o que vemos ou parecemos, não passa de um sonho dentro de um sonho.”
(Edgar Allan Poe)

Incidente no cemitério

Era um homem de aparência comum, um pouco esquisito e calado as pessoas diriam, mas sempre simpático e prestativo. Digno de confiança. Não tinha nenhum grande sonho, nem objetivo espetacular de vida. Não pensava ser um grande médico que salva milhares de vidas, tampouco um empresário ou advogado com seus respectivos momentos de glória. Ser caixa de um supermercado, para ele bastava, pagava suas contas, mantinha seus hábitos e só.
Tão singela era sua participação nesse mundo que ninguém notou quando sua tia desapareceu, não houve buscas, nem noticia sobre ela na Televisão. E ela fora a mulher que o criara, que o transformara na pessoa que era.
Notaram mesmo quando outras mulheres do mesmo tipo físico, com mesmo corte de cabelo e vestidas de igual forma foram aparecendo. Uma a uma. Por toda cidade, com os mesmos ferimentos, as mesmas mutilações, e as mesmas mãos tampando seus olhos.
Havia um assassino em série na nação. E isso que todo mundo pensava que esse tipo de coisa só acontecia em filme. Estava acontecendo aqui, logo aqui.
Mas ninguém se lembrou de Plínio, que apesar de nunca sorrir era sempre cordial com seus clientes, mesmo com aqueles que qualquer bom cristão teria vontade de esganar.  Talvez se sorrisse deixasse de ser feio e as pessoas notassem um pouco mais sua existência, mas ele nunca sorria, nem quando criança, nem quando adulto.
Era magro, não musculoso, mas se orgulhava de manter uma alimentação razoavelmente saudável. É claro que às vezes dava-se ao luxo de comer alguma besteira, afinal ele também era filho de Deus.
E apesar de ter sido criado pela tia, uma pessoa bastante desequilibrada a quem ele, definitivamente devia esse seu jeito de ser, até que Plínio era uma pessoa otimista, adorava as noites de sábado. Ah! Sábado sim, nessas noites ele fazia valer sua existência.
Durante a semana mantinha uma rotina insossa, mas nos sábados ele era livre, e por aquela sensação de liberdade qualquer sofrimento diário era um preço pequeno a ser pago.
Na verdade, de domingo a sexta, aproveitava sua vidinha sem graça para preparar seu cronograma, uma espécie de roteiro para a esperada noite de sábado. Aquela em que ele se sentiria realmente feliz.
Uma verdade, porém, deve ser dita, até ao mais metódico dos homens imprevistos podem acontecer e aí que o dilema se faz na vida do singelo Plínio.
A temperatura estava amena por aqueles dias, nem frio, nem muito frio e nada de calor, o que facilitava muito sua ideia de perfeição para a obra de arte em que trabalharia no sábado. E ele merecia mesmo que tudo saísse minuciosamente perfeito. 
 Na terça feira finalmente tinha tomado sua decisão, havia encontrado a preciosa matéria-prima e nem tivera sido tão difícil, como das outras vezes. Trabalhar no caixa do supermercado lhe dava certa vantagem nesse sentido e ele estava confiante de que fizera uma escolha espetacular, afinal a mulher que elegera era, assim como sua desaparecida tutora uma pessoa peculiar, não apenas na aparência. Ela deveria beirar os trinta e cinco anos, ter os cabelos pretos e longos, e uma protuberância de carne e gordura por toda a extensão do corpo.
A escolhida se enquadrava perfeitamente dentro de seus parâmetros exigentes e ele sentia-se muito confiante de que havia feito a escolha certa.
Ela tinha surgido diante de seus olhos e faiscado em suas entranhas, num dia comum. Como sempre, Plínio passava educadamente os produtos pelo sensor eletrônico que, através do código de barras computava os preços, mas apesar da cordialidade do atendente a mulher se mantinha concentrada demais em protagonizar uma cena, que posteriormente ele chamou de “momento quase Hitchcock”. Gostava de pensar que as escolhia por um motivo mais justo que apenas a aparência semelhante a da tia, embora essa parte fosse mais como um fingimento moral.
Aquela mulher, entretanto cabia bem nesse quadro e ele nem pensara duas vezes para escolhê-la.
Enquanto a observava dentro de seu silencio astuto, ela punha as mãos rechonchudas sobre os braços finos de um garotinho de aparência frágil, que deveria beirar os quatro ou cinco anos. Na certa o menino deveria ser seu filho e valendo-se desse fato o agitava freneticamente. Os olhares no entorno se voltaram para as lagrimas que percorriam as faces do menino, ainda que ele tentasse escondê-las atrás das mãos. Aquela cena era grotesca até mesmo para Plínio.
E ele seguira cuidadosamente cada um dos passos necessários para o acontecimento.
No sábado, quando tudo estava pronto, Plínio que já se havia encarregado de levar sua convidada para um quarto forrado até o teto com panos e algo mais para abafar os sons, o quarto de sua tia, estava feliz.
E enquanto ele reproduzia quase fielmente a obra de arte que vivenciara tantas vezes na infância, pelas mãos da falecida tia, lacerando a pele da jovem mãe desnaturada, beliscando suas coxas e nádegas e arrancando-lhe fios de cabelos, ela fizera exatamente o que esperava que fizesse. Gritava, pedia socorro, implorava pela vida, mas o vingador em série não se compadeceu.
Finalmente, quando as suplicas, o choro e as lamurias cessaram, ele se sentiu vingado. E havia vingado também o garotinho do supermercado. Agora vinha a ultima etapa de seu ritual, precisava levá-la para o local programado e lá finalizar sua grande obra de arte, deixando-a nua, com as mãos cobrindo os olhos, exatamente como era deixado no quarto escuro depois que a tia sentia-se satisfeita e ele dolorido demais para falar.
Mas carregar uma morta não é tarefa fácil e Plínio decidiu fazer a refeição e assistir um pouco de televisão, descansando as juntas que já não eram tão jovens.
Em uma chamada de emergência, daquelas que interrompem a programação, Plínio se vê tomado em desespero quando, vendo na televisão, descobre o local escolhido para levar a mulher, tomado de repórteres e policiais, por causa de algum evento de morte. É preciso então colocar o cérebro a funcionar e escolher uma alternativa, afinal passar o resto de seus sábados em uma cadeia, não era a opção ideal. Precisava se manter anônimo. E para isso pensara, pensara muito, por muitas horas, mas estava sem criatividade. Não vinha uma ideiazinha qualquer na mente. Não gostava de trabalhar sobre pressão e lhe incomodava profusamente a questão do cronograma.
Santo Deus, será que era pedir muito que as coisas saíssem como planejado?
Não bastasse o sacrifício que havia sido descobrir onde a mulher morava e depois raptá-la, ainda precisava resolver essa questão de ultima hora. As coisas pareciam estar se complicando e isso o estava pondo em um surto. E é aqui o limiar da história, sim limiar, pois é nesse pedaço que inserimos aquele velho ditado: “agora a porca torce o rabo”.
Lá pelas tantas o desespero bateu, pois o homem, sistemático que é precisava seguir sua rotina, carecia desovar o corpo morto num local escuro.
As horas iam passando e as ideias não vinham, o vingador desorientado resolveu fazer como qualquer desesperado faria, colocou a morta retalhada, envolta em mantas e cobertores dentro do fusca barulhento e saiu a rodar por ai.
Ocorreu-lhe então de ir para o cemitério. Que lugar melhor pra um cadáver que um cemitério?
Passar despercebidamente não era tarefa difícil para um homem como ele, ainda que em um fusca com motor a ponto de fundir-se.
Abrir o portão, averiguar o sono pesado do vigia e tirar o corpo do carro não lhe impusera grandes obstáculos também. Complicado mesmo seria transportar aquele peso todo pelo comprido corredor entre túmulos e chegar a um local mais reservado e distante das lâmpadas.
E despendendo um tremendo esforço colocou o corpo dela no chão, ainda enrolada nos panos velhos da tia e curvou-se para arrastá-la. Até sentiu-se um pouco animado, revigorado.
Enquanto percorria o corredor de chão batido, numa posição conhecida como aquela que influenciou a derrota de Napoleão, Plínio constatou que o cemitério era bem mais agradável do que ele sempre supusera, o cheiro não era dos melhores, mas o silêncio era tranqüilizador.
Precisou por um instante descansar suas costas, não era nenhum atleta e a mulher era um pouco mais avantajada no fim das contas. Postou-se de pé, de forma muito ereta e até ousou alongar-se um pouco, esticando os braços na direção do céu. Respirou profundo e fechou os olhos. Não pensou em nada, só gostou da sensação.
Voltando a sua saga, o vilão descabido, matutando a possibilidade de retornar seguidamente ao local esquadrinhou mais uma vez os arredores em busca da acomodação perfeita para sua vitima.
Entretanto, e é exatamente nesse instante que o rabo da porca se torce, o que ele avista não é um canto escuro, mas uma espectadora, muito interessada por sinal.
Primeiro Plínio achou que estava ficando maluco, tendo alucinações com almas penadas. Mas então eles olharam-se muito bem para compreender que nenhum dos dois estava insano, pelo menos não em relação à existência do outro.
Ela estava sentada em cima de um túmulo, parecia vestir uma roupa escura e ter cabelos curtos, o observava muito atentamente carregar a mãe do garotinho. E Plínio atônito pensou: Mas que diabos ela está fazendo ali?


G. R.

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Graci Rocha